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Gurgel: a grande história da única fabricante de carros brasileira

Gurgel Motores S/A fundada pelo paulista João Gurgel, foi a única montadora brasileira a desenvolver e fabricar seus próprios carros em território tupiniquim. João foi um grande brasileiro que dedicou sua inteligência para o desenvolvimento da indústria automotiva no Brasil.

Na época, construir uma montadora de automóveis era um sonho quase impossível, dado as dificuldades econômicas de um país subdesenvolvido, porém João Gurgel era uma pessoa diferenciada, e provou isso fabricando 40 mil carros durante a existência da sua montadora.

Em 1949, no quinto ano da escola politécnica em São Paulo, curso de mecânica, apresentei como trabalho de formatura um pequeno veículo de dois cilindros em lugar de um guindaste de coluna, quase fui reprovado, o professor me disse: “Gurgel, automóvel não se fábrica, automóvel compra-se, tecnologia automobilística é coisa de multinacional”.

Relato de João Gurgel em uma entrevista, 1987.

Início da Gurgel Motores S/A

João iniciou fazendo mini karts para competição, alguns modelos foram dirigidos por Wilson Fittipaldi e José Carlos Pace, grandes nomes do automobilismo. Logo após montou uma concessionária da Volkswagen em São Paulo.

Passou também a produzir karts infantis. Estes tinham como característica serem funcionais e de qualidade, assim como os de competição. Eram construídos com motores a combustão de um único cilindro e tinham capacidade para duas crianças.

Um dos grandes diferenciais de seus veículos era o uso da fibra de vidro, um material leve e maleável. Na época foi uma boa alternativa para diminuição de peso, atualmente esse material não é mais utilizado pela indústria automotiva, sendo o plástico, alumínio e aço seu substituto.

Como João era o dono de uma concessionária da Volkswagen, houve uma aproximação com o presidente da companhia na época, Schultz-Wenk, onde desenvolveram uma relação de amizade. Gurgel passou a ter acesso aos componentes construtivos da marca, principalmente chassi e motor, utilizados em seus primeiros carros Gurgel.

A primeira fábrica, em 1969

Graças a sua aproximação com Schultz-Wenk e a venda da sua única concessionária da Volkswagen para o Silvio Santos, ele tinha dinheiro para poder abrir sua primeira fábrica.

Então em 1969, na capital de São Paulo, João iniciou parte de seu sonho que trazia desde sua juventude: produzir veículos 100% nacionais, sem depender de tecnologias do exterior.

Vale ressaltar que era uma fábrica de fato, não uma montadora como hoje em dia, onde as marcas apenas montam as peças produzidas por outras empresas. Na época todo o carro era fabricado e montado pela Gurgel, com exceção do chassi e motor, que provinha da Volkswagen.

O primeiro veiculo fabricado foi o Ipanema. Um bugre construído de plástico reforçado com fibra de vidro, materiais que João já tinha experiência devido a sua produção de modelos infantis. Utilizava motor de 1.6 litros refrigerado a ar da Volkswagen.

Após o primeiro sucesso, a Gurgel construiu uma evolução do seu primeiro modelo de 1969, denominado de Xavante, agora mais robusto e resistente. O carro também foi um sucesso, inclusive com modelos exclusivos para o Exército Brasileiro. Esse foi um dos maiores êxitos da marca.

A segunda fábrica, em 1975

Devido ao bons resultados, iniciou-se o processo de expansão da Gurgel Motores. Em julho de 1973 comprou um terreno em Rio Claro, no interior de São Paulo, para construir uma fábrica maior.

Dois anos após, em 1975, a fabrica em Rio Claro foi inaugurada. Um salto enorme para a Gurgel, que no seu início, 6 anos atrás, fabricava apenas quatro carros por mês.

Primeiros carros elétricos

A Gurgel também tentou em investir em carros elétricos, o primeiro se chamava Itaipu E150, em homenagem a usina hidrelétrica brasileira. Porém o veículo encontrou os mesmos problemas que sofremos atualmente, quase meio século depois: baterias muito pesadas e caras, baixa autonomia e carregamento lento.

O modelo nunca foi produzido em série, apenas protótipos foram fabricados, por isso não pode ser considerado o primeiro elétrico feito no Brasil. De qualquer forma isso revela como João esteva a frente do seu tempo, apenas muitas décadas depois é que começou a se falar em carros elétricos, e mesmo assim essa ideia está apenas no inicio.

Em 1980 Gurgel tentou novamente investir em carros elétricos, agora chamado de Itaipu E400, o modelo também durou pouco, pelos mesmos motivos já mencionados do seu primeiro carro elétrico.

Evolução da marca

Em 1979, a Gurgel já tinha uma gama de dez modelos, todos a combustão, movidos a gasolina ou álcool.

Gurgel patenteou a tecnologia que chamava de Plasteel, um chassi construído misturando plástico e aço. As inovações da montadora não pararam por ai, uma das novidades também foi o Selectraction, que permitia transferir a força do motor para a roda que tivesse mais aderência ao solo, criando um diferencial da marca para situações off-road.

BR800, o maior orgulho da Gurgel

Em 1988 surgiu o BR800, como o nome indica, tinha apenas 800 cilindradas, ou 0.8 litros se você preferir. O motor era construído de alumínio e silício, e apesar de ter ganhado fama de ser um motor de fusca “cortado ao meio”, ele era na verdade totalmente produzido pela própria Gurgel.

Finalmente a marca tinha um veículo 100% nacional, sem depender de tecnologia alguma do exterior. Além disso, só existia uma forma de comprar o carro, através de aquisições de ações da Gurgel Motores S/A, a ideia era capitalizar a companhia para expandir a produção.

No inicio foi um enorme sucesso para a Gurgel, emplacando milhares deles. Porém devido as novas legislações tributarias e a chegada de modelos fortíssimos no mercado, como o Fiat Uno, o BR800 foi perdendo força até parar de ser produzido em 1991.

O começo do fim

A década de 90 tinha tudo pra firmar a Gurgel como uma grande montadora, porém na verdade acabou acontecendo o contrário.

Fernando Collor, então atual presidente do Brasil, abriu o mercado para entrada de carros estrangeiros e isentou o IPI de todos os carros com motor 1.0 litros ou menos. Com isso, tivemos a entrada de diversos modelos fabricados por montadoras com muito mais dinheiro que a Gurgel, logo acabou ficando muito mais difícil para a Gurgel competir nesse cenário.

A Gurgel ainda tentou se defender, facilitando a compra do BR800 e criando uma evolução do modelo, chamada de Supermini.

Ainda desenvolveu o projeto Delta para tentar competir, a ideia era fabricar o carro no Ceará. Porém o governo daquele Estado, na época governado por Ciro Gomes, não honrou com seus compromissos. Sendo esse considerado um dos grandes culpados pelo fim da Gurgel.

Depois de tentar por diversos meios sobreviver, incluindo um pedido de empréstimo ao Governo Federal, em 1994 a marca declara falência.

O legado de João Gurgel

João foi um guerreiro em tentar empreender na indústria automobilística nesse país. Quando a empresa mais precisou, o governo além de não ter ajudado, tomou medidas, mesmo que inconscientemente, para afundar a empresa.

É uma prática comum os governos auxiliarem as empresas do setor automobilismo de seu país, pois no futuro essa é uma medida benéfica, gerando empregos, aumentando o PIB e fortalecendo a economia com entrada de capital estrangeiro no momento da exportação.

Infelizmente não foi dessa vez que tivemos a oportunidade de ter uma forte indústria nacional do setor automobilístico. Porém fica o legado de João Gurgel, por mais que pareça impossível, foram 40 mil carros produzidos em um dos mais difíceis países para se empreender.

Sou mecânico com muitos anos de experiência. Tenho preferências por carros japoneses e atualmente tenho um Subaru Impreza 2011. Quem sabe um dia consiga ter um Mitsubishi Eclipse ou então dirigir um Honda NSX. Nunca se esqueça: o melhor carro do mundo é o que a gente tem. | Instagram