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Fordlândia: a cidade construída pela Ford no Brasil

O pneu é parte fundamental de qualquer carro, sem ele teríamos rodas de madeira. Dado sua importância fundamental no processo de fabricação dos carros, a Ford precisava de outra opção além de depender de um único produtor desse material, a Malásia, país asiático e colônia britânica.

Na década de 1920 os pneus eram fabricados de látex, provindo de plantações de seringueira. Por causa do clima brasileiro e a fama da Amazônia ser um ambiente propício para plantação dele, Henry Ford foi convencido a estabelecer uma fábrica produtora desse material por aqui, já que nunca sequer pisou em solo brasileiro.

No ano de 1927, em um terreno capitaneado no Estado do Pará, no município de Aveiro, a Ford iniciou a instalação de sua fábrica em território brasileiro, em uma área de grandes dimensões, com mais de 14 mil quilômetros quadrados.

A Fordlândia começou a ser projetada em 1927, com o intuito de escapar do monopólio britânico da borracha, tendo como objetivo principal a exploração do látex, advindo da plantação de milhares de hectares de seringueiras.

A região não era deserta. Quando os americanos desembarcaram aqui já haviam algumas centenas de habitantes de origem indígena, tendo como base econômica as atividades de caça e pesca.

Havia um detalhe importante, o terreno era isolado da civilização, em torno de 800km da capital do Pará. Se viu necessário criar uma cidade na região apenas para suprir as demandas da indústria que ali estava se formando. Foi nesse contexto que a Ford começou a executar a criação de sua cidade em território tupiniquim.

As casas eram construídas com materiais pré-moldados, e muitas delas já vinham praticamente prontas dos EUA, seguindo o padrão norte-americano da época. A Fordlândia parecia um pedaço dos Estados Unidos dentro do Brasil. Com uma escola, um grande hospital, portos fluviais, estação de rádio e telefone, além de todo o sistema hidráulico, elétrico e até mesmo piscinas seguindo o padrão estadunidense.

Relatos confirmam o grande impacto social e econômico que atingiu a cidade, exemplo disso se vê na conjuntura hospitalar, que era abrangente, de qualidade e gratuita a todos os moradores da região. Cirurgias plásticas experimentais e procedimento pioneiros marcaram a época. Não faltavam medicamentos e nem assistência de saúde.

No início houve um choque cultural entre os trabalhadores estadunidenses e brasileiros. O que já se era de esperar, já que a cultura americana era muito diferente naquela época. A Ford, por exemplo, exigia a utilização de crachás pelos trabalhadores, e era rígida com normas disciplinares e até alimentares.

Um fato curioso foi a grande restrição na dieta dos brasileiros, onde se fez proibido inclusive o consumo de farinha de mandioca e estabeleceu-se uma alimentação baseada em carne vermelha e arroz integral. Extremamente rígido, o Fordismo acreditava que apenas um tipo de dieta era adequada a todos, ignorando questões ambientais e culturais.

Em determinada situação, isso inclusive ajudou a gerar um embate entre os trabalhadores brasileiros e os chefes da Ford, tendo inclusive que o exército brasileiro intervir na situação, com a finalidade acalmar os ânimos para que pudesse haver um acordo.

O começo do fim

Pode-se dizer que foram dois grandes motivos que fizeram a Ford desistir da sua fábrica no Brasil, o primeiro foi o fato de surgir um novo componente para substituir a borracha das seringueiras na produção de pneus, a borracha derivada do petróleo. Com isso, a demanda pelo látex caiu vertiginosamente, até parar de ser produzido para esse fim.

O segundo motivo foi o grande desconhecimento que a equipe de Ford tinha na plantação de seringueiras. Diversos erros foram cometidos, como desmatar toda a área sem fazer nenhum estudo sobre os componentes do solo e também plantar as seringueiras em distâncias menores que a ideal.

Seringueiras são plantas que vivem muito bem em condições naturais de flora, ou seja, sem a exploração do solo a volta e contando com a diversidade de outras espécies. O grande erro de Ford foi a monocultura da espécie sem respeitar as suas características naturais. Foram quase 4 milhões de árvores plantadas nesta condição.

O acúmulo de seringueiras na mesma região modifica o solo natural, favorecendo a infestação de fungos da espécie Microcyclus ulei que devasta rapidamente o plantio. Como resultado, a equipe de Ford teve diversos problemas na extração do látex.

Como a plantação não havia tido o sucesso esperado, e estava surgindo um novo substituto derivado do petróleo muito melhor para a produção do pneu, os trabalhadores enviados dos Estados Unidos retornaram para seu país de origem pouco a pouco. Apenas levando roupas e itens diários, deixaram para trás todo um vilarejo construído por eles.

Então, 18 anos após sua chegada ao Brasil, em 1945 a Ford se despede do país, através de uma decisão de um sucessor de Ford, já que Henry não estava mais a frente da companhia. A plantação de seringueiras já não valia mais a pena.

Como herança da época, ficaram as construções bem características, o maquinário pesado e robusto e as lembranças da troca de cultura entre americanos e brasileiros. No cenário atual não se vê mais a abundância da era industrial, e sim uma cidade fantasma onde restaram poucos habitantes e traços de uma pobreza extrema.

Sou mecânico com muitos anos de experiência. Tenho preferências por carros japoneses e atualmente tenho um Subaru Impreza 2011. Quem sabe um dia consiga ter um Mitsubishi Eclipse ou então dirigir um Honda NSX. Nunca se esqueça: o melhor carro do mundo é o que a gente tem. | Instagram