Início » Blog » Aquilo que NINGUÉM CONTA sobre os carros elétricos

Aquilo que NINGUÉM CONTA sobre os carros elétricos

O relatório da Bloomberg New Energy Finance (BNEF) mostra que os carros elétricos devem passar de 2 milhões para 56 milhões de unidades até 2040, o que corresponde a mais da metade dos veículos do mundo.

O motivo é que a produção desses carros elétricos custará menos, e a previsão é que tenham cada vez mais espaço no mercado automotivo mundial. Já, a venda dos carros convencionais, que são abastecidos com combustível, cairá de 85 milhões para 42 milhões.

O meio ambiente é beneficiado, pois apesar do crescimento do número de carros em circulação, não haverá tanta emissão dos gases tóxicos que contribuem para o aquecimento global. Segundo o relatório da BNEF, os níveis de emissões irão cair, porém, apenas voltarão aos níveis de 2018.

Mas será que motores elétricos são tão superiores aos motores a combustão? Eles não poluem nada?

Aquilo que ninguém conta sobre os carros elétricos

Os principais prós e contras dos carros elétricos já são bem conhecidos por quem costuma acompanhar o tema. Do lado positivo, comemora-se emissão zero de poluentes, silêncio, manutenção barata, muito torque e baixo custo de rodagem.

Do lado negativo, lamenta-se o alto preço de compra, a baixa autonomia, a demora na recarga e os poucos postos de abastecimento. Existem questões, porém, que não costumam aparecer nas análises tradicionais sobre a tecnologia que dominará a indústria automobilística nos próximos anos.

São pelo menos quatro desafios para os quais ninguém ainda encontrou resposta. É como se todos estivessem empurrando o problema com a barriga, deixando para se preocupar com isso lá na frente. Vamos entender agora essa bomba-relógio. Fábricas não estão prontas para os carros elétricos.

Todos os grandes fabricantes de automóveis estão extremamente preocupados com o ano de 2030, data em que boa parte da Europa deve suspender a venda de veículos a combustão. Até nos EUA há estados que vão aderir à proibição: Califórnia, Massachusetts e New Jersey, todos em 2035.

De fato, os fabricantes estão quase desesperados porque não sabem como isso será feito. É pouco tempo para fazer a conversão de um negócio gigantesco que trabalha com um ciclo de produto de longo prazo – são em média quatro anos para fazer um novo projeto de carro a partir do zero.

Faça as contas: a Europa tem apenas nove anos para transformar 100% sua indústria em produtora de carros elétricos, sendo que hoje eles só representam 6% do seu mercado.

E mesmo assim, esse crescimento tímido só ocorreu porque houve ajudas enormes em formas de incentivos fiscais por parte dos governos. Só que é fácil dar benefícios fiscais de até US$ 7.500 (como nos EUA) quanto os elétricos representam uma mixaria nas vendas. Como será na próxima década quando milhões de impostos não forem para os cofres desses mesmos governos?

É por conta desse cenário tão complexo e ainda indefinido que alguns analistas do setor apostam que até 2030 a data de proibição pode ser prorrogada. Assim, só nos resta aguardar para saber como serão os próximos capítulos dessa novela.

Carros elétricos põem empregos sob ameaça

Carros elétricos são mais simples de construir: demandam 30% menos de trabalho na produção e usam menos componentes – 11 mil contra 30 mil de um convencional. Além de centenas de peças que compõem um motor a combustão interna, ele ainda precisa de sistemas de lubrificação e refrigeração. E nada disso funciona se não houver a transmissão.

Pois saiba que tudo isso é inútil em um veículo elétrico. Fábricas que produzem motores a gasolina, radiadores, câmbios, velas, injeção eletrônica, todas elas vão desaparecer se não fizerem outra coisa. E mesmo que façam, existem fornecedores demais para componentes de menos. E aí temos um grande risco de desemprego pela frente, já que a indústria automobilística é responsável por enorme número de empregos em diversos países, incluindo o Brasil.

Um estudo encomendado pela Volkswagen na Alemanha para o Instituto Fraunhofer aponta que 12% dos empregos dessa indústria devem sumir, já computando as funções que vão surgir. Alguns alertam, porém, que se trata de uma estimativa muito otimista.

O Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis) calcula que, das 830 mil vagas do setor no país, cerca de 410 mil (49%) serão eliminadas até 2030. Aumente esse número para 2,7 milhões funcionários europeus ligados às montadoras. E nem estamos contando os empregos indiretos em fornecedores. Depois amplie para o restante do mundo para entender a dor de cabeça que nos espera.

Baterias mais baratas? Não é bem assim!

Como ditam as leis do mercado, o aumento da produção traz o ganho em escala e, portanto, a redução de preços. É nisso que apostam os fabricantes de carros elétricos, especialmente na queda do custo da bateria, o item mais caro do automóvel: ela responde por até 40% do preço final do veículo.

Mas essa redução de custo pode não acontecer como se espera. O preço da bateria despencou nos últimos anos: estudo da Bloomberg New Energy mostra que ele caiu 87% de 2010 a 2019. Porém, analistas alertam que, quando boa parte do mundo aderir aos elétricos perto de 2030, a situação vai mudar.

Com o mundo cada vez mais digitalizado, mais produtos estarão conectados à internet e mais celulares e computadores serão vendidos. E todos usam baterias de lítio que têm a mesma tecnologia do veículo elétrico. Só que a bateria do carro elétrico precisa de 100 mil vezes mais energia que no celular. Então dá para imaginar o tamanho do problema que teremos em 2030.

Mesmo que a produção das baterias cresça muito, a demanda por alguns metais usados na sua fabricação crescerá exponencialmente, como o caso de cobalto e lítio. É verdade que o preço do lítio caiu bastante devido a uma super oferta, mas especialistas explicam que isso é uma situação temporária e mudará bastante em 10 anos. E lembrando de novo: os elétricos ainda representam só 6% das vendas atuais na Europa.

Para apimentar esse cenário, as reservas desses dois metais estão concentradas nas mãos de poucos países: 50% do cobalto estão na República Democrática do Congo e 75% do lítio na Bolívia, Chile e Argentina. E, ao contrário de um produto manufaturado, que você pode fabricar onde quiser, os metais só podem ser extraídos em locais que a natureza escolheu.

Refrigeração da bateria 

Há também uma questão técnica que vai dificultar a redução drástica de preço dos carros elétricos. Mesmo que as baterias fiquem bem mais baratas com o crescimento da produção, o mesmo não acontecerá com seu sistema de refrigeração.

Assim como num celular, a bateria gera calor quando o veículo é usado e até três vezes mais durante a recarga. Para evitar o superaquecimento, existem sistemas de arrefecimento a ar (comuns nos automóveis elétricos mais baratos) e a líquido (bem caros e que equipam as versões mais modernas). Quanto mais os fabricantes correm atrás de recargas mais rápidas, mais sofisticada (e cara) será a refrigeração da bateria.

A torcida agora é para saber quem vai conseguir desarmar essa bomba-relógio a tempo.

27 anos, trabalho na área da saúde. Adoro escrever, por isso colaboro tanto como escritora da AutoXP como da CasoCriminal.com.br, dá uma conferida lá também ;)